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A Nara Roesler Nova York tem o prazer de apresentar Fragments for a Cartography of Return [Fragmentos para uma cartografia do retorno], exposição individual de Carlos Bunga (Porto, 1976), com curadoria de Luis Pérez-Oramas. Bunga é conhecido por sua exploração poética e radical da materialidade polimórfica da arte. Em sua obra, a matéria pode assumir a forma de abrigo, maquete, campo performativo, suporte para mapeamento, protótipo, impressão, marca, vestígio, ruína ou larva. Seu domínio de diferentes meios sustenta uma prática nômade movida pela fascinação pelas formas em potência. A ambiguidade de suas esculturas arquitetônicas e suas pinturas sobre papelão e tapeçarias situa grande parte de seu trabalho entre o que foi e o que poderia ser: passado e futuro, ruína e protótipo, ausência e utopia.

“Essa incerteza poética permeia a arte de Bunga como uma prática nômade. Ao contrário do sedentário, como notaram Deleuze e Guattari, o nômade não se desloca de um ponto a outro, é a trajetória que importa. Nesse sentido, Bunga continuamente mapeia, marca caminhos e enfatiza a porosidade da arte. Mapas para lugar nenhum, vindos de lugar nenhum, uma cartografia atópica”, afirma Pérez-Oramas.

Desde o início de sua carreira, Bunga se envolve com a arquitetura, bem como com as noções de lar e domesticidade. Para ele, a arquitetura é mais do que um exercício formalista em que a forma segue a função; trata-se de uma estrutura de relações – entre indivíduos, suas subjetividades, memórias, emoções e o tempo. Seu interesse em noções como autoconstrução e construção pré-fabricada, assim como sua investigação sobre a oposição polar entre nomadismo e colonialismo, resultaram em instalações marcantes, como seu projeto para o Palácio de Cristal – Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía em 2021, um exemplo notável tanto de crítica institucional quanto de reflexão sobre o próprio espaço expositivo. Para Bunga, construir torna-se uma instância privilegiada para compreender a vida em geral, assim como a dimensão temporal da arquitetura. Igualmente central em sua prática é o uso de materiais transitórios e efêmeros, como papelão e fita adesiva, que emprega com frequência em instalações que criam espaços híbridos, mutáveis e abertos à transformação.

Mesmo em trabalhos participativos e performáticos, o elemento pictórico quase sempre se faz presente na produção de Bunga. O próprio artista observa: “A pintura está direta ou indiretamente presente em todo o meu trabalho. É a base do meu pensamento, um lugar multifacetado, cheio de camadas, perspectivas e cheiros.”

Fragments for a Cartography of Return se desdobra em três “estações”. A primeira, visível da rua, transforma a ampla janela da galeria em um mural de vestígios, combinando maquetes escultóricas, objetos encontrados e vídeo, aberto ao exterior. No interior, os visitantes encontram os característicos “mapas” de Bunga, pinturas texturizadas sobre papelão e tecido. Suas cores vivas e vibrantes – descontínuas e craqueladas – evocam uma dimensão fugidia, profundamente conectada ao surgimento inesperado da natureza e à experiência humana do errar. “Como cartografias inúteis, essas obras abrem espaço para uma experiência de passagens desorientadoras e de expectativa. Segundo Deleuze e Guattari, o nômade sabe esperar, sua paciência é infinita”, acrescenta o curador.


Na última e maior sala da galeria, uma pintura monumental no chão, concebida especificamente para o espaço, convida o público a uma experiência sensorial: caminhar sobre uma espessa camada de tinta craquelada, percebendo a natureza efêmera da cor sob os pés, cercado por esculturas suspensas que Bunga chama de Casulos – formas larvais, esculturas em devir. Juntas, elas evocam um retorno à potência, à iminência das formas.