A Nara Roesler apresenta a exposição A casa do decorador, individual do artista cubano Marco A. Castillo. Membro durante décadas do coletivo Los Carpinteros, onde atuava ao lado de Alexandre Arrechea e Dagoberto Rodríguez Sanchez, desde 2017 dedica-se exclusivamente à sua própria produção, no qual reflete sobre aspectos da cultura e da sociedade cubana por meio do design e das artes aplicadas. Depois de apresentar a exposição La Casa Del Decorador / The Decorator’s Home nos Estados Unidos (2019), em Cuba (2019) e no México (2024, onde ocupou uma casa modernista), o projeto chega ao Brasil. As pesquisas de Castillo abraçam o design, a arte e a arquitetura da América Latina como um todo e por isso a casa Domschke, obra de Vilanova Artigas, foi escolhida para receber o artista no Brasil. A exposição acontece entre 8 e 28 de abril de 2026. A curadoria é de Livia Debbane.
A base para a pesquisa do artista é justamente a história do modernismo cubano desenvolvido entre as décadas de 1950, 1960 e 1970. Naquele período, Cuba vivia uma cena cultural efervescente, com consequências em especial na arquitetura e no design. Por consequência desse momento, emergiu uma geração de designers e arquitetos que ao mesmo tempo em que buscavam criar formas novas, conectando-se com a produção das principais vanguardas modernistas, engajaram-se na busca por uma identidade nacional, empregando materiais e técnicas já muito presentes na cultura e na sociedade cubana. A Revolução Cubana, a partir de 1959, num primeiro momento representa para essa geração a possibilidade de colocar em prática suas ideias numa escala muito maior, dado que tais pesquisas e descobertas começam a ser aplicadas em projetos políticos e de Estado. Contudo, a partir da década de 1970, por conta da crescente influência da União Soviética no país caribenho, os modelos importados daquele país passam a predominar em detrimento da estética modernista local, que entra em declínio e passa a ser lida pelo regime cubano como “gosto burguês”. Esse processo culminou na emigração de muitos desses criadores e designers para o estrangeiro, bem como no ostracismo ou destruição de suas criações.
Em sua poética, Castillo se debruça sobre esse legado, criando estruturas nos quais os materiais empregados fazem referência a esse momento da história do design cubano, como a treliça, a palha e o mogno. Os títulos das séries de trabalhos também homenageiam alguns dos personagens que deram contribuições para esse período do design cubano. Trata-se, por exemplo, da série Lam, presente na mostra, que o artista vem desenvolvendo desde 2021. O título da mesma faz referência a obra do pintor cubano modernista Wifredo Lam (1902-1982), cujo trabalho foi pioneiro no resgate de símbolos e elementos das culturas e religiões afro-cubanas. O trabalho do pintor acabou por inspirar o design cubano da década de 1960, no qual essa simbologia afro era incorporada em móveis. Nesses trabalhos, Castillo evoca fragmentos justamente desse mobiliário.
Trabalhos como Maria Victoria, Ivan, e Córdoba igualmente homenageiam alguns desses personagens históricos, fazendo uso dos mesmos materiais que estes empregavam. As reflexões que acompanham estas criações, todavia, refletem principalmente sobre o contexto político da ilha. No caso de Córdoba, Castillo emprega assentos de caoba, madeira típica de Cuba amplamente utilizada no mobiliário modernista, e as conforma num formato de uma estrela, símbolo associado à Revolução Cubana e fartamente utilizado na propaganda associada à mesma.
A mostra também reúne trabalhos da série Cadernos-Ditadura, na qual o artista reflete sobre a carga simbólica desta palavra. Sobre capas de livros em conjunto, ele executa incisões onde grava letras que compõem a palavra Dictadura. Para Castillo, essa reflexão é especialmente crucial ao levar em conta o sistema no qual muitos cubanos cresceram. Sua intenção é convocar repetidamente a essa palavra, para recordar a experiência de crescer sob um regime autoritário.
A mostra será sediada na Casa Domschke, residência projetada por Vilanova Artigas em 1974. Dessa maneira, a exposição, em diálogo com o edifício, promove reflexões sobre o modernismo latino-americano e o legado deixado pelo mesmo.