A Nara Roesler São Paulo tem o prazer de apresentar Choices , exposição individual de Rodolpho Parigi (1977, São Paulo). Com curadoriado crítico de arte holandês Krist Gruijthuijsen, a mostra reúne trabalhos criados especialmente para a ocasião. O artista, de mudança para Nova York, considera esta exposição “uma espécie de despedida do Brasil”.
Para Gruijthuijsen, a fragilidade do corpo, entendida como um lugar de identidade, significado e transformação contínua, constitui e inspira de forma permanente o trabalho de Rodolpho Parigi. Segundo o artista, “a pintura funciona menos como uma tradição herdada por linhagem e mais como um ecossistema no qual imagens, formas e histórias circulam, colidem e se transformam”. Em suas telas, “fragmentos da história da arte convivem com diagramas anatômicos, estruturas botânicas, motivos gráficos e vestígios da cultura popular”. Como observa o curador, “olhar para as pinturas de Parigi é como tentar segurar um sonho depois de acordar, a imagem persiste, mas continua escapando”.
O curador observa que, em Choices, as obras articulam um tempo não linear, em que imagens retornam transformadas e desafiam a ideia de uma história fixa. Diante das pinturas de Parigi, destaca um fluxo em que a percepção oscila e as imagens não se revelam de imediato, exigindo tempo e atenção. Em contraste com a velocidade das imagens contemporâneas, enfatiza que “o trabalho lento e deliberado da pintura interrompe”, propondo uma experiência de olhar prolongado.
Rodolpho Parigi afirma que essas novas pinturas “condensam todo o meu trabalho dos últimos vinte anos”, sintetizando uma pesquisa contínua em que diferentes repertórios visuais e conceituais se entrelaçam. Seu processo de criação é marcado por uma elaboração minuciosa, em que cada elemento é tratado com autonomia, como destaca ao dizer que “cada um deles é feito como uma única pintura”.
Ao incorporar referências a artistas históricos como Victor Brecheret (1894–1955), Maria Martins (1894–1973) e Tarsila do Amaral (1886–1973), o artista não busca a citação direta, mas a transformação desses repertórios, afirmando que “elas ficam do meu jeito”. Em sua prática, a ideia de metamorfose é central, “tudo está sempre se transformando, o pensamento, o corpo, e tem a metamorfose das imagens, da história da arte, das histórias queer”, o que aponta para uma abordagem em que passado e presente se contaminam.
Outra observação feita por Krist Gruijthuijsen é que “a exploração do corpo por Parigi nunca se limitou apenas à tela”. “No início dos anos 2010, ele introduziu um alter ego chamado Fancy Violence, uma persona extravagante e teatral que apareceu em performances, exposições e eventos públicos em São Paulo e Berlim. Fancy Violence foi, em muitos sentidos, uma extensão viva das pinturas de Parigi, uma figura que incorporava a instabilidade de suas imagens. Em seu excesso flamboyant, Fancy Violence coloca em primeiro plano a sexualidade, a teatralidade e a autoconstrução, ecoando o pensamento de Judith Butler, que descreve o gênero não como um dado predeterminado, mas como um ato contínuo de performance”.
“Nesta exposição, olhar para trás não é um gesto de indulgência, mas um processo ativo e inquietante. O passado é menos um arquivo estável do que um terreno contestado, povoado por imagens carregadas de histórias de poder, desejo, ideologia e violência. As revisitações de Parigi transformam essas imagens de pontos de referência fixos em perguntas. Lembrar não é repetir, mas desmontar e reanimar. As imagens são extraídas de seus contextos originais, colocadas no presente e autorizadas a se contradizer, absorvendo novas camadas de significado. A autoridade se dissolve e a história torna-se matéria”, escreve Krist Gruijthuijsen.