sobre

Carlito Carvalhosa (1961–2021) tornou-se, desde sua morte prematura, uma referência central entre os artistas brasileiros atuantes no início do século XXI. Conhecido por sua capacidade proteica de transitar entre diferentes meios em escalas monumentais, pela transformação inventiva dos espaços expositivos e pelo impulso arquitetônico arrebatador de suas obras site-specific, suas instalações marcaram um ponto de inflexão na história do gênero no Brasil. Único artista brasileiro a ocupar o átrio principal do Museum of Modern Art, em Nova York, Carvalhosa foi, desde o início de sua trajetória, um pintor em essência, um pintor da carne e dos ossos da pintura, do corpo interno da pintura.

 

Por volta de 1987, ao trabalhar com cera de abelha e resina, Carvalhosa explorou a materialidade bruta do meio em um exercício de luto da pintura. Ao evitar a individuação convencional de figuras em seus primeiros trabalhos, privilegiou a produção residual de campos contínuos, nos quais a matéria em seu estado primordial e a luz como acidente se tornam cúmplices de uma eloquência ousada no repertório abstrato e monumental. Uma inclinação à ação incontrolável da matéria, sua maleabilidade e a incerteza das formas nela inscritas caracterizam esse período inicial de sua produção pictórica. Igualmente relevante é o próprio corpo de cada pintura, tanto em sua dimensão tridimensional quanto em sua espessura interna, suas entranhas poéticas.

 

A seleção apresentada pela Nara Roesler para a TEFAF NY 2026 concentra-se na maturidade de Carvalhosa como pintor. Para um artista capaz de desativar conceitos reguladores e binários da arte visual formalista, como opacidade e transparência, matéria e forma, reflexo e vestígio, frente e verso, silêncio e som, planura e dobra, o auge de sua produção pictórica, entre 2010 e 2019, revela uma resolução dessas tensões formais, resultando em uma estase figural composta por presenças orgânicas, suaves, densas e coloridas, realizadas sobre suportes não convencionais como espelhos, alumínio e cera.

 

Carvalhosa abordou a pintura para além de todas as convenções: em vez de intervir sobre um suporte vazio como uma tábula rasa, compreendia essa ideia como uma ilusão. Para ele, toda superfície já está marcada, toda matéria é uma proto-pintura. Assim, utilizou uma variedade de instrumentos, combinando incisões e derramamentos, vazamentos e pinceladas, além de impulsos e impactos pelo verso de superfícies de alumínio, criando dobras e protuberâncias que compõem o próprio corpo da obra. A organicidade das superfícies coloridas, sua espessura sutil e o jogo vibrante entre opacidade e reflexão constituem um dos conjuntos mais ousados e elegantes da pintura abstrata dos anos 2000. Do informe da cera em seus primórdios à cera como forma no fim de sua vida, Carvalhosa conseguiu, especialmente em suas últimas séries de composições múltiplas em cera pintada, conciliar a oposição secular entre o concreto e o informe, tão significativa para o legado transformador do modernismo tardio brasileiro.