Tomie Ohtake
Untitled, 1964

tinta óleo sobre tela
oil paint on canvas
41 x 31 cm
16.1 x 12.2 in

Tomie Ohtake (1913–2015) nasceu em Kyoto, Japão, e mudou-se para o Brasil em 1936, onde se tornou um dos principais nomes da arte abstrata. Sua carreira artística começou aos 37 anos, quando passou a integrar o grupo Seibi, que reunia artistas de ascendência japonesa no Brasil. No final dos anos 1950, ao deixar para trás a fase inicial de estudos figurativos em pintura, ela mergulhou em explorações abstratas.

 

Sem Título (1964), de Tomie Ohtake, foi criada como parte de uma série de experimentações icônicas chamadas, pelo crítico de arte Mário Pedrosa, de pinturas cegas, e marcaram suas incursões iniciais na abstração. Nesses trabalhos, a artista vendava seus olhos e pintava formas abstratas caracterizadas pela espontaneidade e fluidez. Sem título, por sua vez, também exibe formas geométricas e estruturadas. Essa pintura incorpora o movimento investigativo de Ohtake ao redor das possibilidades da abstração – ela revela formas condensadas, definidas, cores densas, o uso eminente da relação figura e fundo ao mesmo tempo em que os contornos permanecem indefinidos, as formas inclinadas e o resultado parece ter sido rasgado, como se uma página tivesse sido dilacerada. Curiosamente, foi nessa época que a artista começou a produzir estudos em pequena escala usando o papel colorido de revistas que ela literalmente havia rasgado com as mãos. Ohtake arrancava formas de periódicos e as justapunha em composições, posteriormente transpondo-as para pinturas de grande formato.

 

Como sugerido pelo curador Paulo Miyada, o processo se tornou o modo como Ohtake lidava com a instantaneidade do gesto e infundia ambos acaso e controle em todo o processo de pintura. Ele escreveu: “Redobrar a atenção sobre os estudos da artista é, neste momento, uma forma de – sem refutar o caráter direto de sua pintura – acessar a engenhosidade com que aproximou planejamento e imprevisibilidade em sua prática pictórica. Com isso, algumas polaridades reincidentes na leitura da pintura brasileira daquele período, como a polarização dicotômica entre cálculo geométrico e gesto expressivo, podem ser reelaboradas, tendo em Ohtake um marco de invenção e liberdade.” Sem Título captura o esforço presente em toda a vida da artista para entrelaçar práticas supostamente incompatíveis, constituindo uma experimentação dirigida pela extemporaneidade e por princípios racionalistas. Nas palavras da própria artista: “Uma pintura não é uma coisa, mas um movimento, pode ser antes, pode ser depois”.