Nara Roesler completa meio século como galerista. Uma história iniciada na década de 1970, quando não era possível saber o que dali viria. E que iria levá-la a vários cantos. Uma história que teve inflexão crucial quando, na década seguinte, estabelece sua galeria em São Paulo. E, bem depois, em mais cidades. Percurso que nunca apagou as marcas de seu ponto de partida geográfico e afetivo: o Recife e o Nordeste do Brasil.
Rastros que não são expressos somente nas formas, cores ou temas dos trabalhos feitos por artistas da região. Nenhum repertório empregado em criações artísticas revela, afinal, tudo o que há de particular na sua feitura. O que conta para firmar diferenças são as maneiras singulares com que um mesmo repertório simbólico é flexionado para explicar ou criar mundos. São os modos com que se fala uma língua que anunciam os lugares de onde se vem e como esses são entendidos. E foram os sotaques artísticos enunciados no Nordeste que deram voz própria à galeria Nara Roesler. Outros sotaques viriam depois, ampliando o ruído bom do que é mistura.
Esta exposição reúne obras de artistas diversos da região. São tentativas (conscientes ou não) de capturar os modos como paisagens, ofícios, matérias, crenças, ideias e corpos afetam quem habita esse pedaço do Brasil. Tentativas sempre incompletas ou provisórias, como sempre o são os atos de representação. São obras que afirmam a vitalidade criativa de artistas que compartilham um mesmo lugar simbólico; e que, ainda assim, tecem modos particulares de expressar pertencimento.
Como galerista, há 50 anos Nara Roesler contribui para que vontades de falar de jeitos próprios sejam escutadas. Ampara o que faz no entendimento de que os sotaques dela e dos artistas com quem trabalha – talvez estranhos a alguns ouvidos – são método de ação. Que a festa das falas continue o seu curso.