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A Nara Roesler Nova York tem o prazer de apresentar Tomie Ohtake: The Ultimate Works [Tomie Ohtake: últimas obras]. Com curadoria de Luis Pérez-Oramas, a exposição reúne um conjunto de obras brancas produzido nos anos finais da vida da artista e trabalhos de suas “pinturas cegas”. “São esses dois polos dialéticos — o negro dos olhos fechados que conduziu Tomie a algumas de suas primeiras pinturas brancas e o branco cego de sua obra final — que esta exposição pretende vincular, atando o laço artístico e vital da artista, suas primeiras obras e aquelas realizadas em sua maturidade”, escreve Pérez-Oramas. 

 

Nascida em Kyoto, em 1913, Tomie Ohtake mudou-se para o Brasil em 1936 e começou a pintar na década de 1950, sob a orientação do artista japonês Keiya Sugano. Após um primeiro período dedicado a estudos figurativos, voltou-se para a abstração. Entre 1960 e 1963, realizou as obras que ficariam conhecidas como “pinturas cegas”. A experiência, sugerida pelo crítico Mário Pedrosa, consistia em pintar com os olhos vendados, dando maior espaço à intuição e à sensibilidade durante a execução”.

 

Nas décadas de 1970 e 1980, Ohtake desenvolveu uma linguagem marcada por formas orgânicas, campos monocromáticos e gradações sutis de cor, que mais tarde se estenderia à escultura e ao espaço público. Ao longo de sua carreira, participou de vinte bienais internacionais, entre elas seis edições da Bienal de São Paulo, onde recebeu o Prêmio Itamaraty, além das bienais de Veneza, Tóquio, Havana e Cuenca. Sua obra integra coleções como as do Museum of Modern Art (MoMA), Metropolitan Museum of Art, Tate Modern, San Francisco Museum of Modern Art e M+.

 

The Ultimate Works retoma as “pinturas cegas” para estabelecer uma relação fundamental entre dois momentos distantes da produção de Ohtake. Se, nas primeiras obras, a artista parte da “escuridão” dos olhos cobertos em busca de uma nova forma de visibilidade, nas pinturas finais ela chega a campos brancos, densos e opacos. Para Pérez-Oramas, “aquela “escuridão” iniciática e “zen” da visão, a cegueira voluntária em busca de uma nova visibilidade que procedesse do corpo inteiro, e não apenas dos olhos, alcança sua culminação, ao final da vida da artista, no branco absoluto de suas últimas pinturas e esculturas. Nesse sentido, essas obras não são apenas “finais” (ultimate) cronologicamente; elas também possuem uma potência recapitulativa, uma “ultimidade” (ultimacy) na qual a totalidade de uma obra centenária vem a se sintetizar em uma espécie de “kenósis” cromática, um não-ser-nada — ou apenas branco — para chegar a ser tudo: últimos campos para as últimas linhas”.

 

Nas pinturas brancas, camadas de tinta se sobrepõem e se acumulam, criando espessuras que fazem as formas emergirem do plano. Vistas de longe, as obras se apresentam como campos monocromáticos; de perto, revelam saliências. A pincelada, em vez de permanecer apenas como registro sobre a superfície, produz relevo e projeta sombras sobre a própria pintura, revelando sua dimensão quase escultórica: a cor se adensa, concentra-se e, no limite, parece conter simultaneamente todas as cores e nenhuma delas. 

 

O gesto que atravessa essas telas também encontra uma dimensão tridimensional nas esculturas apresentadas na exposição. Produzidas em aço tubular branco, elas levam para o espaço o movimento antes inscrito na superfície da pintura. Suas formas orgânicas se contorcem e se entrelaçam, criando a impressão de um fio suspenso no ar. A estrutura tubular cria diferentes incidências de luz e sombra, como se fosse possível apreender fisicamente a própria pincelada. O movimento serpenteia pelo espaço expositivo e mantém, em três dimensões, a continuidade do gesto pictórico. 

 

Nessas obras de seu último ano de vida, Tomie Ohtake atinge um dos momentos mais consistentes de toda sua trajetória. Os tons de preto associados à cegueira voluntária do início da carreira encontram, no fim, o branco das telas e esculturas. Entre os dois extremos, a exposição propõe ler a trajetória de Tomie Ohtake como uma investigação contínua sobre os limites da percepção.