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A Nara Roesler Rio de Janeiro apresenta Natural Forms [Formas naturais], segunda exposição individual de José Dávila (1974, Guadalajara, México) no Brasil e a primeira no Rio de Janeiro. Depois de Um pirata, um poeta, um peão e um rei, realizada pela galeria em São Paulo, em 2023, o artista apresenta nove trabalhos: oito esculturas inéditas e a pintura The fact of constantly returning to the same point or situation (2025).

 

As esculturas foram concebidas especialmente para a exposição. Para desenvolvê-las, Dávila reproduziu em escala real, em seu ateliê, em Guadalajara, o espaço da galeria e passou a trabalhar dentro dele. As dimensões e proporções das obras respondem diretamente à arquitetura. “Fiz no meu ateliê o espaço da galeria em escala real e comecei a trabalhar diretamente nele”, conta.

 

Há mais de duas décadas, Dávila investiga propriedades fundamentais da escultura, como peso, densidade, volume, massa e equilíbrio. Em Natural Forms, essa pesquisa se desenvolve por meio do que o artista chama de “simples ato de posicionar”: colocar objetos em diálogo e observar o que esse encontro produz. Pedras, mármore travertino, concreto, metal, vidro, madeira e bronze são apoiados, equilibrados ou aproximados com o mínimo de intervenção sobre suas formas.

 

Para Dávila, uma pedra encontrada na paisagem possui uma configuração escultórica o suficiente para ser apreciada. “São esculturas antes da escultura”, afirma. O mesmo olhar se estende ao vidro, ao metal e ao concreto. Sem opor o mundo natural ao mundo industrializado, o artista busca a capacidade de reconhecer as formas primárias e, a partir de gestos mínimos e cores sutis, encontrar sua poesia. 

 

É a primeira vez que o artista expõe no Rio de Janeiro, cidade que carrega um lugar especial para o artista. “É de um peso cultural extremamente importante. Para mim, expor no Brasil é sempre significativo, pois a arte, a arquitetura e o paisagismo do país me influenciaram muito e estão inerentemente presentes em minha obra”, afirma.

 

Para essa exposição, Dávila aprofundou a afinidade entre sua pesquisa e a cidade através do neoconcretismo. Ao recordar o Manifesto Neoconcreto, redigido pelo poeta e crítico de arte Ferreira Gullar e assinado por artistas como Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Lygia Clark e Lygia Pape, o artista observa que o movimento carioca marcou uma separação em relação ao concretismo de São Paulo, deslocando a geometria de um campo estritamente racional para uma experiência mais intuitiva, orgânica e sensível. “Tento fazer as mesmas perguntas que os artistas que assinaram o manifesto neoconcreto: como levar uma intuição orgânica, sutil e suave à forma geométrica com materiais industrializados?” 

 

Essa aproximação entre geometria, intuição e materialidade aparece nos três trabalhos intitulados Homage to the Square (2026). O título faz referência direta à série homônima, iniciada em 1950 pelo artista e professor Josef Albers e centrada nas relações entre cor e percepção que permeiam conceitualmente o neoconcreto. Realizados em metal, vidro e madeira, os novos trabalhos retomam e empregam uma nova técnica desenvolvida por Dávila para aprofundar sua investigação sobre a incidência da luz e as interações entre as cores. 

 

A pintura The fact of constantly returning to the same point or situation também aborda a relação entre forma, cor e percepção. Na série, Dávila constrói círculos de diferentes cores e consistências, frequentemente incompletos ou interrompidos pelos limites da tela, impedindo que a composição seja apreendida como uma totalidade.

 

A dimensão poética do conjunto aparece ainda nos títulos das obras. Man made mountain (2026), escultura composta por concreto, metal e pedras, parte da leitura de Dávila de Thinking Like a Mountain, ensaio do ecólogo e escritor norte-americano Aldo Leopold publicado em A Sand County Almanac, em 1949. No texto, a lembrança de uma loba morta pelo autor conduz à compreensão de que a montanha sabia algo que ele ainda desconhecia. Dávila transporta essa passagem para a escultura: “É aceitar que a forma tem uma razão anterior a nós, que chegamos tarde e não sabemos”.

 

Em conjunto, essas obras dão continuidade à investigação apresentada em The Simple Act of Positioning, em Nova York, mas alteram de intensidade. Segundo o artista, enquanto os trabalhos nova-iorquinos operavam em um ritmo mais intenso, no Rio ele procurou “baixar o volume” para descobrir o que ainda poderia ser percebido.

 

O baixo volume define o que Dávila chama de “frequência silenciosa” da exposição. “Quero produzir impacto com um sussurro, e não com um grito”, diz. “A pergunta é se, com o mínimo gesto, é possível sustentar uma obra.” Subtle desire (2026), escultura em mármore travertino, concreto e metal, condensa no próprio título essa busca.