A Nara Roesler Nova York apresenta The Other, exposição com curadoria de Vik Muniz que encerra as celebrações dos 50 anos da trajetória de Nara Roesler como galerista. Em cartaz de 5 de novembro de 2026 a janeiro de 2027, a mostra reúne trabalhos de Antonio Dias, Julio Le Parc, Tomie Ohtake, Daniel Buren, Richard Long, Sheila Hicks, Heinz Mack, Isaac Julien, JR, Cao Guimarães, Jonathas de Andrade, Amelia Toledo, Carlito Carvalhosa, Marco Maggi, Alexandre Arrechea, Xavier Veilhan, Angelo Venosa, Not Vital, Maria Klabin, Marco A. Castillo e Jose Dávila, além do próprio Vik. A partir de diferentes linguagens e períodos, a exposição investiga como a percepção de cada indivíduo sobre si mesmo depende de uma perspectiva externa, que lhe é inacessível: a do outro.
O ponto de partida é o conceito de “excess of seeing” (excesso de visão), formulado pelo filósofo russo Mikhail Bakhtin, segundo o qual cada indivíduo percebe aspectos dos demais que permanecem inacessíveis a eles próprios. Muniz relaciona essa ideia à prática artística, que exige um deslocamento da própria perspectiva para observar algo de outro lugar. A obra, por sua vez, adquire sentidos que ultrapassam a intenção de quem a criou e dependem também da experiência do espectador.
A proposta dá continuidade a questões presentes na pesquisa artística de Muniz, marcada pela construção de imagens com materiais como açúcar, chocolate e resíduos. Ao recriar imagens conhecidas com elementos inesperados e fotografar os resultados, o artista investiga como reconhecemos e interpretamos aquilo que vemos.
Essa atenção à percepção também aparece em sua trajetória como curador na Nara Roesler, com a qual mantém uma colaboração de longa data. Em 2012, assinou Buzz, mostra do programa Roesler Hotel dedicada à arte ótica e aos efeitos que desafiam a percepção visual. Em 2018, dividiu com Lucas Blalock e Barney Kulok a curadoria de Screenspace, exposição sobre a cultura visual e os usos da fotografia em um contexto pós-digital. Os projetos abordaram questões distintas, mas ambos partiram de uma investigação sobre a produção e a leitura das imagens.
Dentre as obras presentes em “The Other” está Black Mirror (1968), na qual Antonio Dias utiliza madeira revestida de fórmica para construir um objeto negro cuja superfície reflete a imagem de maneira difusa. O material interfere no reconhecimento do que está diante dele, fazendo do reflexo menos uma reprodução fiel do mundo do que uma experiência mediada pela percepção.
Em Global Myopia (Parking Mirror) (2010), Marco Maggi faz incisões em um espelho convexo, interferindo na imagem refletida. Já em Mundo de espelho (1966), Amelia Toledo utiliza seis peças de aço inoxidável recortadas e perfuradas para fragmentar e multiplicar os reflexos do ambiente. Ambas as obras exploram os limites da percepção e a relação entre o observador e aquilo que ele vê.
Em Senhorio, por Reginaldo, da série Eu, mestiço (2017), Jonathas de Andrade combina retrato e texto para investigar como convenções sociais e raciais influenciam a percepção dos indivíduos. A obra integra um projeto que retoma pesquisas sobre os critérios usados para atribuir características e valores a pessoas a partir de suas imagens. Em Retroatos # 01 (1998/2016), Cao Guimarães reúne vinte fotografias, explorando o retrato como forma de registro e mediação entre o sujeito fotografado e quem observa a imagem.
No conjunto, os trabalhos apresentam diferentes maneiras de abordar a distância entre ver e ser visto. A diversidade de linguagens e trajetórias não corresponde a um programa estético comum: o que aproxima os artistas é a maneira como cada um introduz uma perspectiva externa em seu processo de criação, seja pela manipulação da imagem, pela participação do espectador ou pela investigação dos códigos que orientam a percepção.
A própria localização da galeria acrescenta outra dimensão à discussão. Como observa Muniz, a Nara Roesler é uma instituição brasileira instalada em Nova York, uma presença estrangeira em um contexto cultural distinto daquele em que se originou. Em diálogo com a reflexão da filósofa Julia Kristeva sobre a alteridade como parte da constituição do sujeito, “The Other” propõe pensar o outro não apenas como alguém diferente de nós, mas também como aquilo que ainda não reconhecemos em nós mesmos.