O artista Carlos Bunga retorna ao CAM com um gesto radical e transformador: desmontar, colapsar, reconfigurar e reorganizar ‘Bosque’, sua instalação site-specific que ocupa a Nave.
Concebida como uma coreografia entre o interior e o exterior, a exposição se manifesta tanto na forma como as obras foram instaladas no espaço quanto no modo como o público a percorre. Durante cerca de uma hora e meia, Bunga irá cortar e rasgar ‘Bosque’, submetendo as formas e a composição — criadas há quatro meses — ao acaso e à força da gravidade. Assim como sua construção foi improvisada, sua desconstrução também ocorre sob condições imprevisíveis.
Em grande parte colapsada, a instalação deixará de ser o que era: após ser cortada, dobrada e derrubada, uma nova paisagem, uma nova arquitetura emergirá. A exposição se abrirá, assim, a perspectivas inesperadas e energias renovadas, permanecendo como memória de si mesma.
Ao longo dos últimos vinte e cinco anos, a transformação tem sido não apenas um tema no trabalho de Carlos Bunga, mas um aspecto central de seu processo artístico. O artista questiona a autoridade das estruturas permanentes e previsíveis da sociedade, desenvolvendo uma crítica institucional que se estende ao seu próprio trabalho, a partir de uma perspectiva nômade. Em uma exposição que abrange tanto a brutalidade quanto a poesia de estar vivo, é natural que o próprio projeto passe por um processo de metamorfose.
Essa performance marca o ápice de múltiplas transformações. Para Bunga, a exposição e a coleção são entendidas como um organismo vivo, uma coreografia contínua; o museu, como um espaço permeável. Desde sua inauguração, em 7 de novembro de 2025 — quando ex-bailarinos da Fundação Calouste Gulbenkian voltaram a dançar com outros corpos e outras idades — até o Aniversário da Arte, celebrado em 17 de janeiro de 2026, inspirado na ideia de Robert Filliou para o “1.000.011º Aniversário da Arte” (concebido em 1963 e celebrado pela primeira vez em Portugal em 1974), o CAM tornou-se uma grande casa pública, com eventos dentro e fora de seus muros. Ao longo desses meses, as obras foram alteradas, deslocadas, removidas e reintroduzidas.
Em 14 de março, Carlos Bunga retorna ao CAM para uma performance aberta ao público, transformando o espaço em um evento participativo. Para o artista, a mudança é um princípio vital, algo que se reinventa continuamente e flui. Sua origem é buscada na natureza, território de trânsito e pensamento, onde vida e morte coincidem e se complementam, funcionando simultaneamente como metáfora da própria vida.
Essa ação assume a forma de uma coreografia, uma dança e uma orquestra coletiva de diferentes corpos, com a participação de Ricardo Pinto (trompete) e dos bailarinos Sylvia Rijmer, Bernardo Gama, Rui Reis, Paula Valle Sabino e Ana Caetano.