sobre

Amelia Toledo (1926–2017) foi a grande dama da abstração ecológica no Brasil. Enquanto suas contemporâneas abordavam a complexidade dos corpos coletivos e da psique corpórea (Lygia Pape, Lygia Clark); o corpo da linguagem, em sua dimensão espiritual e transcendente (Mira Schendel); e a imaginação figurativa cósmica (Tomie Ohtake), Toledo concentrou-se, de maneira inabalável, no corpo da terra, na natureza como corpo e fonte de uma beleza não intencional.

 

Amelia Toledo, figura fundamental na história da abstração no Brasil, experimentou incessantemente com materiais, concentrando-se na natureza híbrida dos objetos de arte e na beleza não endereçada dos seres naturais, sobretudo rochas e cristais, poeira, corais, areia e conchas. Em vez de imitar a aparência da natureza, Toledo voltou-se para seus processos e operações naturais, reproduzindo sua agência e temporalidade em suas obras.

 

No início de sua carreira, enquanto trabalhava com William Turnbull em Londres, Amelia produziu algumas aquarelas de beleza arrebatadora que, por sua densidade visual, evocam processos de sedimentação presentes na natureza. Essas obras anteciparam seu interesse pela opacidade inerente aos corpos transparentes, fossem eles artificiais ou naturais, levando-a a experimentar com plástico e resina no final dos anos 1960. Produziu, assim, esferas e esculturas hápticas nas quais a transparência se transforma em uma armadilha prismática para a luz, sob texturas imaculadas que convidam a uma abordagem visual-tátil.

 

A representação para além e antes da mimese foi um objeto permanente de investigação para Amelia Toledo. Daí seu interesse por superfícies reflexivas capazes de produzir anamorfismos e deformações, sua incessante imitação do poder de metamorfose da natureza e seu fascínio pela moldagem de corpos, pelos índices e pelas marcas, pela beleza ressonante da lentidão dos processos naturais, como demonstrado nos fósseis e cristais.

 

Mas Amelia Toledo nunca foi indiferente ao seu próprio tempo e às políticas implicadas em sua abordagem da arte. Assim, na década de 1970, enquanto o Brasil estava submetido à repressão e ao autoritarismo, Amelia respondeu explicitamente às restrições à liberdade de expressão em sua série Emergências. Era uma maneira de definir corajosamente os ditadores como predadores, incorporando-os nos rastros de tigre sobre jornais, e de convocar à resistência e à revolta, simbolizadas pela marca de mãos humanas abertas.

 

Mas Emergências, como ela intitulou esse conjunto fundamental de obras, também indicava, de maneira mais geral, o impulso poético de Amelia Toledo em direção à própria noção de surgir, avançar, elevar-se, expandir-se, emergir, irromper e florescer — um componente central de sua observação do mundo e, portanto, elemento constitutivo de sua realização artística.

 

Emergências fala literalmente tanto de urgência quanto do constante surgimento das formas. Por volta da década de 1980, seu fascínio pelos traços e pelas marcas constituiu a gramática básica e essencial de sua abordagem tardia da pintura, por meio da repetição de marcas sobre materiais ásperos, sintetizando tanto a opacidade da arte quanto a transparência da beleza.

 

— Luis Pérez-Oramas