sobre

A Nara Roesler Nova York apresenta, ao longo de 2026 — ano em que celebra 50 anos de atuação —, uma série de exposições concebidas como encontros entre artistas de diferentes gerações, cujas obras estabelecem ressonâncias a partir de afinidades formais e conceituais. Entre esses diálogos, a exposição Sobre a natureza das figuras, destaca a aproximação entre Amelia Toledo (1926–2017) e Cristina Canale (n. 1961), duas artistas cujas produções, embora distintas em meios e procedimentos, convergem na investigação da forma em relação à natureza e às estruturas que organizam o campo visual.

 

Amelia Toledo é uma figura central na arte brasileira do século 20, com uma produção que estabelece conexões decisivas entre o modernismo e a arte contemporânea. Em diálogo com artistas como Lygia Clark, Mira Schendel e Lygia Pape, sua obra desloca a tradição construtiva ao incorporar processos naturais, materiais orgânicos e uma atenção constante ao espaço. Ao fazê-lo, reconfigura a abstração como experiência sensível, marcada pela presença da matéria, pela ação do tempo e por dinâmicas próprias do mundo físico.

 

A produção de Cristina Canale se insere nesse horizonte ao mesmo tempo em que o atualiza no campo da pintura contemporânea. Reconhecida como uma das principais pintoras de sua geração, Canale desenvolve composições marcadas por campos cromáticos densos e cuidadosamente construídos, nos quais figuras emergem ou se dissolvem em superfícies que evocam atmosferas magmáticas e oceânicas. Sua pintura articula figura e fundo como instâncias instáveis, em que a forma parece sempre em processo de formação ou desaparecimento.

 

A aproximação entre as duas artistas se constrói a partir desse interesse comum pelo mundo natural e pela forma como processo. Em Toledo, essa dimensão se manifesta na incorporação de materiais e fenômenos naturais que tensionam e reorganizam a estrutura da obra. Em Canale, aparece na construção pictórica, onde cor, gesto e densidade cromática operam como forças que configuram e desestabilizam a imagem. Em ambos os casos, a forma se apresenta como campo em transformação, no qual se tornam visíveis tanto as forças que a constituem quanto os sistemas que a sustentam.