A Nara Roesler apresenta a exposição Antes da forma, o encanto, de Mônica Ventura, com curadoria de Catarina Duncan. A mostra reúne trabalhos produzidos ao longo dos últimos dez anos, ao lado de obras inéditas, articulando um campo de investigação em que matéria, ritual e forma se entrelaçam como dimensões indissociáveis.
A palavra “fetiche”, central ao vocabulário que atravessa a exposição, carrega uma história marcada por deslocamentos e distorções. Derivada do latim facticius, a noção foi apropriada no contexto colonial para designar objetos investidos de poder espiritual por populações da Costa do Ouro, no continente africano, reduzidos pelo olhar europeu à condição de superstição ou exotismo. Ao recuperar essa genealogia, a exposição propõe uma inflexão crítica: o chamado “fetiche” é reinscrito como sistema simbólico, como condensação de forças e como forma inseparável de práticas, ritos e memórias.
Nesse contexto, as esculturas, pinturas e instalações de Mônica Ventura aproximam procedimentos artísticos de tecnologias rituais diversas, mobilizando materiais e processos como agentes ativos. A forma, aqui, emerge como corpo animado, dispositivo de troca entre o visível e o invisível, entre presença e transformação.
A cabaça, também conhecida como cuia, igbá ou poronga, atravessa a exposição como eixo formal e simbólico. Presente em diferentes cosmologias afro-indígenas como forma matricial, ela aparece nas obras como ventre, recipiente e semente. Em versões que vão do ouro ao aço corten, da madeira carbonizada à cerâmica e à forma natural, a cabaça se desdobra em um vocabulário plástico múltiplo, operando como estrutura e princípio organizador.
A partir desse eixo, a prática da artista se expande para um campo material mais amplo. Plantas, metais, pigmentos, óleos e processos transformativos configuram um campo em que a matéria é entendida como portadora de energia e memória, atravessando diferentes sistemas de conhecimento e modos de fazer.
Ao reunir esses elementos, a exposição desloca o espaço expositivo para uma condição híbrida entre laboratório, abrigo e altar. Nesse ambiente, identidades e formas são pensadas como sistemas em circulação, permeados por passagens, trocas e recomeços.
Se o fetiche colonial buscou fixar o objeto em uma leitura estável, a obra de Mônica Ventura recusa a estabilidade e insiste em seu estado de transformação, fazendo da matéria um campo onde forças se condensam e se reorganizam continuamente.