León Ferrari
Maquete para homem, 1962
aço inox
70 x 35 x 35 cm

coleção particular

Press Release

Entre 1976 e 1991, León Ferrari (1920-2013) se exilou em São Paulo. Durante esse período, o artista pode renovar sua produção ao conceber tipologias formais previamente inexistentes em seu trabalho, enquanto sistematizava sua crítica sarcástica e radical ao poder e à religião.

1976 foi o ano infame em que o golpe militar impôs um longo período de ditadura na Argentina. Sentindo ameaças sobre si e sua família, Ferrari decidiu se instalar em São Paulo. Os primeiros anos após o golpe foram marcados pelo medo e a ansiedade em relação ao paradeiro de seu filho Ariel, ativista político que, junto com sua esposa, havia sido seqüestrado, aprisionado ilegalmente e assassinado pelas forças militares na Argentina. León e Alicia Ferrari jamais puderam enterrar os restos de seu filho. Uma longa luta pela justiça iniciou-se. Ferrari incessantemente buscou auxílio de inúmeras organizações e instituições internacionais, reivindicando justiça para seu filho. Surpreendentemente, é nesse momento decisivo de sua vida que Ferrari revisita sua prática de desenho abstrato, técnica que havia dominado com maestria no início da década de 1960.

Ao repetir a forma característica das línguas de fogo, combinada com um traçado gestual completamente original, ele concebe uma nova tipologia abstrata. Admiravelmente, esses desenhos, testemunhos de uma das experiências mais dramáticas na vida do artista, figuram como metáforas abstratas do inferno judaico-cristão realizadas por alguém que, mais tarde em sua vida, dirigiria uma carta ao Papa exigindo o cancelamento da noção do Inferno.

Em São Paulo, Ferrari também alcançou um dos ápices de sua prática escultórica ao utilizar emaranhados de arame na produção de estruturas prismáticas que remetem a gaiolas, ou a jaulas em volumes modulares; algumas delas, em escala monumental, foram desenhadas como elementos para eventos participativos, performáticos e sonoros.

A sujeição à cidade esmagadora contribuiu também para um novo conjunto de trabalhos conhecidos como 'Arquitetura da loucura', manifesto em desenhos e gravuras, e desdobrado através de diversas técnicas reprodutivas, como xeroxes, plantas arquitetônicas, cianotipias, etc., nas quais enfatizou o absurdo da vida cotidiana e a alienação das massas. Seu duradouro interesse pela linguagem também se apresenta em desenhos e colagens onde bestiários, alfabetos, séries numéricas e linhas emaranhadas ecoam suas esculturas e fazem colidir diversos conjuntos herméticos, eróticos e irônicos de codificação.

O legado mais interessante da produção brasileira de Ferrari está ligado às suas releituras da Bíblia e à denúncia dos horrores políticos e da violência institucional. Através da apropriação de imagens de guerras, da história e da história da arte, Ferrari reinventou completamente a colagem, voltando-a para a desconstrução do poder – como se verifica no “Juízo Final” de Michelangelo, que, submetido à defecação de pássaros, exemplifica uma de suas grandes e maduras composições performáticas, assim como a conjunção de figurações cristãs com imagens eróticas orientais.

A Galeria Nara Roesler orgulha-se em comemorar o centenário de León Ferrari com esta exposição virtual que conta com obras seminais da sua produção no Brasil.

Assista ao vídeo sobre a exposição.

Vistas da Exposição